PROSA
CONTOS E CRÔNICAS


O DIA EM QUE TUDO MUDOU
Rafael de Andrade Branco
Eu me lembro do dia em que acordei e o mundo não estava mais no lugar. Não era dor. Não era cansaço. Era um silêncio diferente dentro dos olhos, como se a luz tivesse me esquecido de acender. Fiquei tentando trazer o foco de volta — piscando, apertando, respirando fundo — até perceber que não era um erro do meu corpo. Era a vida me chamando para um caminho que eu nunca imaginei.
Naquele dia, tudo mudou. Não só a visão. Eu. Senti medo, claro. Medo de não reconhecer mais os rostos que eu amava, medo de não acompanhar a escola, medo de perder o que sempre foi simples: andar, olhar, desenhar, jogar game, aprender as partituras de piano, seguir.
Mas, com o tempo, entendi que a visão não acaba quando os olhos falham. Ela muda de lugar. A alma aprende a enxergar antes da gente perceber. Foi a partir desse dia que comecei a escrever.
Não para lamentar — mas para continuar existindo. Para dar forma ao que eu sentia, e encontrar um jeito de ver o mundo de novo. É assim que este livro começa: no exato momento em que a luz decide mudar de endereço, e a gente decide mudar junto com ela.
(Trecho da obra Escrevendo no Escuro, de Rafael de Andrade Branco e Fabiana Vargas de Andrade)